Modalidades "esquecidas" carecem de apoio no Brasil

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Data: 23/10/2011, por Ary Pereira Jr.

Nos últimos dias acompanhei de perto várias modalidades, que infelizmente nem sempre têm espaço na mídia, vítimas da monocultura do futebol em nosso País.

Fomos atrás do badminton, tênis de mesa, squash, luta greco-romana e até do hóquei sobre grama (esporte sem representante brasileiro em Guadalajara) para levarmos democraticamente até a exigente audiência do Terra, as transmissões dos esportes excluídos da geração oficial de imagens do Pan.

É gratificante poder oferecer uma transmissão exclusiva aos praticantes e amantes de uma determinada modalidade, que nem sonhavam com a oportunidade de torcer assistindo ao esporte preferido ao vivo.

Gratificante porque a gente percebe a euforia dos internautas pelas mensagens enviadas.

A resposta é imediata. Esse tipo de cobertura contribui para a evolução do esporte.

E são exatamente modalidades como estas que mais carecem de apoio.

Quando os torneios das modalidades aqui citadas se afunilam com oitavas, quartas-de-final e semifinais, a história se repete e os brasileiros duelam invariavelmente com atletas que estão mais de cem posições à frente no respectivo ranking.

Por mais que haja esforço e talento na maioria das vezes não dá jogo. É uma questão técnica.

No tênis de mesa quase deu para a brava Jéssica Yamada. Ela não ganhou da americana Ariel Hsing por detalhes. Perdeu por 4 sets a 3 o jogo que a levaria para as quartas. Quase 150 posições à frente no ranking, a americana poderia ter atropelado Jéssica não fosse a superação e garra demonstradas na mesa.

Com Caroline Kumahara a situação foi ainda mais crítica. Enfrentou, na mesma fase, a chinesa naturalizada dominicana Wu Xue. Pouquinho antes da partida me aproximei da Caroline mais para dar um incentivo. “Vai lá Carol. Boa sorte, estamos torcendo”. Realista, Carol respondeu. “Eu vou jogar, mas ela é número 50 do mundo e eu sou mais 300″. Pois é. Não dá jogo mesmo.

Encerradas as partidas para os brasileiros, fiz questão de ouvir a opinião de Hugo Hoyama, atleta que acompanho desde os Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata, em 1995.

Do alto de suas 10 medalhas de ouro e 42 anos de experiência, Hoyama foi objetivo. “Para tirar essa diferença tem de jogar. E jogar com adversários de alto rendimento”.

Durante dois ou três anos vi de perto o incansável trabalho de Marcos Yamada, pai da Jéssica, na academia Itaim Keiko, em São Paulo.

Essas meninas do Pan abrem mão de qualquer atividade para treinar tênis de mesa. Passear, namorar, ir ao cinema, tudo fica para depois, menos o estudo, é claro.

Mas apesar de toda a dedicação, é difícil evoluir se não houver, por exemplo, um programa que concilie estudo e treino e de preferência com um intercâmbio internacional. Pode ser uma saída eficiente.

Na semifinal do squash masculino por equipes, que também transmitimos com exclusividade, os brasileiros Vinícius Rodrigues e Vinícius de Lima não tiveram a menor chance diante de mexicanos muito mais bem ranqueados.

Uma disputa desigual. E o mesmo pude observar durante nossa transmissão do primeiro dia da luta greco-romana. Marcelo Gomes, o Zulu, e Rafael Páscoa não venceram uma luta sequer.

O próprio local de lutas, o CODE ll (Complexo de Fomentação ao Esporte) é um espaço dedicado às crianças que querem lutar: boxe, taekwondô, greco-romana e por aí vai. É um programa do governo de Jalisco voltado ao esporte de base.

Fiz a mesma pergunta do Hoyama ao chefe da delegação brasileira de lutas, Roberto Leitão. “Por que a diferença?” Leitão apresentou uma proposta que hoje parece mais um sonho. “Precisamos encher os clubes e as academias de crianças para formarmos o lutador do futuro.

Hoje não temos a garantia de uma continuidade se olharmos para a base das lutas olímpicas.

A molecada tem que lutar”. E vejam que estamos falando em nível pan-americano.

Imaginem a dimensão do problema se o transportarmos as diferenças de todas essas modalidades entre brasileiros e atletas de outros países para um patamar olímpico.

Fonte: terra Esportes